USPSTF recomenda rastreio de violência doméstica

Força-tarefa americana recomenda rastreio de violência doméstica (grau B) em mulheres em idade reprodutiva. Entenda o que muda na prática clínica segundo o JAMA.

6/10/20264 min ler

a man riding a skateboard down the side of a ramp
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Escreva aqui o conteúdo do postA violência praticada por parceiro íntimo (VPI) está entre os problemas de saúde pública mais subdiagnosticados do mundo — e frequentemente passa despercebida em consultas médicas de rotina. Uma recomendação oficial da US Preventive Services Task Force (USPSTF), publicada no JAMA, reforça a necessidade de rastreio sistemático nas consultas de atenção primária.

O documento traz boas e más notícias: há evidência sólida suficiente para recomendar a triagem em mulheres em idade reprodutiva, incluindo gestantes e puérperas. Para o rastreio de abuso por cuidadores em idosos e adultos vulneráveis, porém, a evidência ainda é insuficiente para uma recomendação definitiva.

O que é violência por parceiro íntimo (VPI)?

A violência por parceiro íntimo (em inglês, Intimate Partner Violence ou IPV) engloba agressões físicas, sexuais, psicológicas e comportamentos controladores praticados por um parceiro atual ou anterior — independentemente do gênero ou orientação sexual.

Segundo dados americanos, a VPI afeta milhões de residentes ao longo da vida e frequentemente não é identificada pelos profissionais de saúde. As consequências incluem lesões físicas graves, morte, transtornos mentais, gravidez indesejada e efeitos adversos de longo prazo na saúde geral.

O documento USPSTF — o que foi avaliado

A USPSTF é uma organização independente de especialistas em medicina preventiva e atenção primária nos EUA. Seu papel é revisar sistematicamente as evidências sobre intervenções preventivas e emitir recomendações graduadas de A a D (ou "I" para evidência insuficiente).

Para esta atualização, a USPSTF encomendou uma revisão sistemática avaliando os benefícios e os danos do rastreio de VPI em mulheres em idade reprodutiva (incluindo grávidas e puérperas) e abuso por cuidadores em idosos e adultos vulneráveis. A população-alvo são pessoas sem sinais ou sintomas reconhecidos de abuso — ou seja, o foco é o rastreio oportunístico em consultas de rotina.

Resultados principais

Para VPI em mulheres de idade reprodutiva: a USPSTF concluiu que o rastreio seguido de encaminhamento para intervenções multicomponentes tem benefício líquido moderado. Recomendação: Grau B — clínicos devem rastrear VPI em mulheres de idade reprodutiva, incluindo gestantes e puérperas, e encaminhar as que testam positivo para intervenções de suporte.

Para abuso por cuidadores em idosos e adultos vulneráveis: a USPSTF concluiu que as evidências atuais são insuficientes para avaliar o balanço de benefícios e danos do rastreio. Declaração I — não há recomendação a favor ou contra o rastreio nessa população neste momento.

O grau B significa que a maioria dos planos de saúde americanos é obrigada a cobrir sem copagamento o rastreio indicado — o que, na prática, aumenta o acesso às intervenções.

O que isso significa para pacientes?

Para mulheres em consultas de ginecologia, obstetrícia ou medicina de família: é esperado que médicos façam perguntas estruturadas sobre segurança no relacionamento — não como acusação, mas como parte do cuidado de rotina.

Instrumentos validados como o HITS (Hurt, Insult, Threaten, Scream) ou o WAST (Woman Abuse Screening Tool) podem ser usados de forma rápida em triagem. Pacientes que sinalizam risco devem ser encaminhadas a serviços de assistência social, psicologia e apoio jurídico.

Para o Brasil, onde a Lei Maria da Penha existe desde 2006 mas a subnotificação ainda é enorme, a incorporação do rastreio sistemático em UBS e ambulatórios poderia mudar trajetórias de vida.

Perguntas frequentes

Por que o rastreio em idosos não recebeu recomendação? Porque faltam estudos de qualidade que mostrem que o rastreio, por si só, melhora desfechos em idosos. A população é heterogênea, os instrumentos de triagem têm validade limitada nesse contexto e os benefícios das intervenções subsequentes ainda não são bem estabelecidos.

Como o rastreio de VPI é feito na prática? Geralmente com questionários curtos e validados, aplicados em ambiente privado (sem o parceiro presente). O profissional pergunta de forma direta e empática — e documenta as respostas no prontuário.

O rastreio é eficaz mesmo quando a paciente nega violência? A simples realização do rastreio tem valor: comunica à paciente que o tema é acolhido naquele ambiente. Muitas mulheres divulgam situações de abuso apenas após múltiplos contatos com o sistema de saúde.

Isso se aplica a homens vítimas de VPI? A recomendação atual foca em mulheres de idade reprodutiva, que são desproporcionalmente afetadas. Mas homens também podem ser vítimas — e o rastreio, embora não seja objeto desta recomendação específica, pode ser considerado pelo clínico conforme o contexto.

Conclusão

A recomendação grau B da USPSTF reforça que o rastreio de violência por parceiro íntimo deve ser parte da atenção rotineira às mulheres em idade reprodutiva — não uma exceção para casos "suspeitos". A triagem sistemática salva vidas, e o sistema de saúde é uma das portas de entrada mais importantes para identificar e apoiar vítimas de violência doméstica.

Referência: US Preventive Services Task Force. Screening for Intimate Partner Violence and Caregiver Abuse of Older or Vulnerable Adults: US Preventive Services Task Force Recommendation Statement. JAMA. 2025;334(4):329-338. doi:10.1001/jama.2025.9009